Terça, 22 Janeiro 2013

Mulheres de Axé, o Matriarcado nas Comunidades Nàgó da Bahia

O advento do documentário "Mulheres de Axé", impeliu-nos, filhos da Casa de Òsùmàrè, a redigir ainda que de forma lacônica, algumas linhas que busquem ilustrar o papel histórico, cultural e religioso das mulheres dentro das chamadas Comunidades do Candomblé. Em verdade, desde a fundação dos primeiros Terreiros da Bahia, a figura das mulheres – Mães de Santo permeia o imaginário não somente dos baianos, mas também de todos àqueles que presenciaram a notoriedade, prestígio e certa supremacia religiosa dessas senhoras que não limitaram suas influências aos Terreiros, fazendo por vezes, ecoar a sua voz em lugares pouco prováveis, como veremos a diante. Com efeito, podemos afirmar que essas Mulheres de Axé, conseguiram constituir no Brasil, sobretudo na Bahia (Salvador e Recôncavo), uma espécie de "Feminismo Nàgó", que a priori não existia na África, ao menos com a intensidade e importância com a qual foi edificada por aqui, obviamente excetuando as sociedades femininas, como a das Ìyàmì. Esse movimento surgiu no período pré-abolição, em que as mulheres por meio de trabalhos culinários (venda de quitutes, acarajés, abarás, doces, etc...), conseguiam guardar dinheiro para a compra da sua alforria, bem como, a compra da alforria de outros escravos, que posteriormente se agrupavam para a formação dos Terreiros de Candomblé. Em contrapartida, os homens ganhavam menos com os serviços braçais e possuíam dificuldade em juntar dinheiro, corroborado pelo fato de que, não obstante a renda feminina fosse maior, o homem não abria mão do sustento básico da família, numa busca pela manutenção da sua honra. Não podemos olvidar ainda que, quando os negros foram escravizados, famílias inteiras foram separadas de forma proposital, de modo que, quando essas mulheres conseguiram suas alforrias e, posteriormente, ganhos financeiros por meio da venda de comidas, tecidos e joias, elas buscavam restituir em solo brasileiro, a sua estrutura familiar ora existente na África, entretanto, fazendo valer a sua supremacia. Essas mulheres à vanguarda de seu tempo eram conhecidas e reconhecidas como as Mulheres do Partido Alto, que gozavam de prestígio em decorrência da sua condição econômica. Nesse cenário destoante do ethos das comunidades africanas, as mulheres erigiam não somente templos religiosos, mas também um status que lhes conferiam hegemonia e poder. Nascia o matriarcado do Candomblé. Entretanto, a Religião dos Africanos não se enquadrava para os padrões preconceituosos e cerceadores dos brancos daquela Bahia. Assim, essas Mulheres de Axé, ditas do Partido Alto penetraram no mundo do branco, por meio das confrarias religiosas como a Irmandade da Boa Morte e da Nossa Senhora da Barroquinha, aliando o status social ao já adquirido status financeiro e, fazendo valer o poder feminino no masculino clero católico. Porém, a sagacidade das Mulheres de Axé, as direcionava a seguir aquilo que mais lhe convinha, mesmo que não fosse totalmente aprovado pelos padrões existentes, razão pela qual as mesmas preferirem não se casarem à luz da lei, mesmo tendo sido elas, muitas vezes as responsáveis pela alforria do companheiro. Não havia desse modo, o motivo em ser subserviente aos seus companheiros, conforme apregoava o regimento cultural da época. Decisão essa que, uma vez mais, contribuía para a preeminência feminina. Visionárias, essas mulheres quando sacerdotisas restringiram a iniciação de homens em seus terreiros à figura do Ògán, salvaguardando-se dessa forma, de uma possível emersão masculina à busca do poder, quer seja social, quer seja religioso. Desse modo, as Mulheres de Axé, além de manter sua liderança espiritual intacta, impulsionava sua voz às comunidades externas por meio desses homens, que possuíam funções limitadas nos terreiros, mas que muitas vezes, tinham grande prestígio no âmbito social. A Ìyálòrìsà Aninha, fundadora do Opo Afonjá foi uma dessas sacerdotisas, que reuniu em seu Terreiro inúmeros homens da chamada sociedade baiana, conferindo títulos honoríficos para artistas e intelectuais. Essa "abertura" pouco profunda religiosamente propiciava ao Candomblé (nesse caso Mãe Aninha) a abertura de portas, como por exemplo, para a articulação junto a Getúlio Vargas, então Presidente da República, para a promulgação do Decreto-Lei 1.202, que findava o embargo sobre o exercício do Candomblé no Brasil. A probidade dessas mulheres, contribuiam para o valor de sua fala. Mãe Simplícia de Ògún, Ìyálòrìsà da Casa de Òsùmàrè, também fez ecoar sua voz junto ao Presidente Getúlio, vez que na prática, o decreto-lei 1.202, não era exercido. Mãe Simplícia, com a sapiência singular de uma sacerdotisa, intercedeu pela segurança dos Terreiros ao então Presidente, havendo inclusive registro fotográfico desse encontro. Todas as grandes Mulheres de Axé, de algum modo, utilizaram suas influencias, para algum tipo de benefício ao Candomblé. A célebre Mãe Menininha do Gantois, por exemplo, empregava esforços para o fim da necessidade de autorização para a realização de festas, emitida pela Delegacia de Jogos e Costumes. Mãe Cotinha de Yewa, que foi a primeira mulher a ascender ao trono da Casa de Òsùmàrè, também exerceu um papel fundamental para a defesa da liberdade de culto. Luta essa, também mantida por Mãe Nilzete de Yemoja, que com perseverança defendeu as terras do Terreiro de Òsùmàrè, ameaçadas na década de 80, em decorrência da construção de uma passarela na Av. Vasco da Gama. Na ocasião, Mãe Nilzete utilizou suas influências para conseguir o apoio à sua causa, de pessoas como Gilberto Gil, Ordep Serra, Capinan, dentre outros. É salutar destacar e isso é comprovado de forma factual, que a importância dessas Mulheres de Axé, deu-se pelo intrínseco conhecimento religioso de cada uma, mas igualmente, pela acuidade social e política que lhes permitiu transitar em todos os níveis, com equidade e, em muitas ocasiões, em patamar mais elevado. Exemplificamos com um exemplo atual, a Ìyálòrìsà do Asè Opo Afonjá, Mãe Stella, admirada e reconhecida, sendo inclusive consagrada com o título de Doutor Honoris Causa. Nos dias atuais, além das Ìyálòrìsàs, os Terreiros de Candomblé mais tradicionais da Bahia, outorgaram às suas filhas esse papel social e político que outrora era enveredado somente pela sacerdotisa. Assim, essas grandes representantes femininas das Comunidades Nàgó – As Mulheres de Axé, não são mais única e exclusivamente as Mães de Santo, sendo identificadas nas Egbon e Ekeji. Prova contundente disso, são nomes como a saudosa Mãe Rosinha de Sàngó, Egbon Cidália de Iroko, Egbon Nice e Ekeji Sinha da Casa Branca, Makota Valdina. Ekeji Angelina, Egbon Tomázia e Egbon Sandra de Yemoja, da Casa de Òsùmàrè e, tantas outras que seguem o exemplo daquelas pioneiras e sábias Mulheres de Axé que, edificaram casas e enraizaram uma nova cultura no Brasil. Terreiro de Òsùmàrè
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